Aprender errando: por que o erro precisa deixar de ser punição para virar ferramenta pedagógica

Durante muito tempo, a educação tratou o erro como sinal de fracasso. Errar significava não saber, não prestar atenção ou não ser bom o suficiente. A lógica era simples: quem acerta avança, quem erra fica para trás. Esse modelo pode até ter funcionado em um sistema industrial, padronizado e previsível. Mas ele entra em choque direto com a forma como as pessoas realmente aprendem no mundo contemporâneo.

Em qualquer habilidade real, aprender a dirigir, programar, desenhar, tocar um instrumento ou liderar pessoas, o erro não é exceção. Ele é parte do caminho. Testa-se uma hipótese, observa-se o resultado, ajusta-se a ação e tenta-se novamente. É assim que o aprendizado acontece na prática. Ainda assim, dentro da escola, o erro continua sendo tratado como algo a ser evitado, escondido ou punido.

A pergunta inevitável é: se errar é parte do processo em qualquer área fora da sala de aula, por que insistimos em transformá-lo em problema dentro dela?

O que os games entendem sobre o erro

Nos jogos, errar nunca foi sinônimo de fracasso definitivo. Pelo contrário: errar faz parte da experiência. O jogador testa uma estratégia, falha, recebe feedback imediato e tenta novamente com mais informação do que tinha antes. O erro não encerra o aprendizado, ele o impulsiona.

Esse modelo cria um ambiente psicologicamente seguro para experimentar. Não há humilhação, não há rótulo, não há medo de tentar. Cada tentativa fracassada carrega dados valiosos que ajudam o jogador a evoluir. O progresso acontece justamente porque o erro é permitido, esperado e integrado ao sistema.

Quando essa lógica é aplicada à educação, o impacto é profundo. O aluno deixa de aprender para evitar errar e passa a aprender para entender, testar e melhorar. O foco sai da resposta “certa” e se desloca para o raciocínio, a tomada de decisão e a construção do conhecimento.

O erro como evidência de pensamento

Um dos grandes equívocos do ensino tradicional é tratar o erro como ausência de aprendizado, quando, na verdade, ele é uma evidência clara de que o aluno está pensando. Errar revela hipóteses, caminhos tentados e modelos mentais em formação.

Paulo Freire já alertava que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua construção. Quando o erro é reprimido, o que se reprime não é apenas a resposta errada, mas a coragem de tentar, questionar e se posicionar. O aluno aprende rapidamente que é mais seguro repetir do que arriscar compreender.

Em ambientes onde o erro é aceito como parte do processo, a aprendizagem se torna mais profunda. O aluno se envolve, testa limites e desenvolve autonomia intelectual. Ele aprende não apenas o conteúdo, mas também a aprender.

Avaliar não é punir

Grande parte da resistência ao erro na educação está ligada à forma como avaliamos. Provas finais, notas únicas e médias numéricas transformam o erro em sentença, não em diagnóstico. O erro passa a representar perda de pontos, não oportunidade de ajuste.

Modelos baseados em ciclos curtos de feedback mudam completamente essa dinâmica. Quando o aluno recebe retorno imediato e tem espaço para corrigir o caminho, o erro perde seu peso emocional e ganha valor pedagógico. Avaliar deixa de ser um fim e passa a ser parte do processo.

Isso não significa ausência de rigor. Significa rigor com sentido. Significa usar o erro para orientar, não para excluir.

Do medo de errar à cultura da experimentação

Uma educação que pune o erro forma alunos inseguros, avessos ao risco e dependentes de validação externa. Já uma educação que acolhe o erro forma indivíduos capazes de experimentar, aprender com falhas e se adaptar a contextos complexos — exatamente as competências exigidas no mundo atual.

Aprender errando não é flexibilizar demais, nem “facilitar” o ensino. É alinhar a escola à forma como o conhecimento realmente se constrói. É reconhecer que o aprendizado não é linear, limpo ou previsível, mas cheio de tentativas, ajustes e descobertas.

Quando o erro deixa de ser punição e passa a ser ferramenta, o aluno não apenas aprende mais, ele aprende melhor.

No fim, talvez o maior desafio das instituições não seja ensinar a acertar, mas criar ambientes onde errar seja seguro o suficiente para que aprender seja possível.

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